Quando te vi na varanda pensativo, desejei poder invadir a sua cabeça
pra descobrir o que se passava contigo naquele momento. Eu conhecia esse
seu olhar preocupado e adorava o jeito como tentava disfarçar com um
sorriso descontraído, inutilmente, é claro. Sabia que algo estava errado
e mesmo assim não consegui perguntar nada. Quando me aproximei, você me
abraçou forte, então nos beijamos e ficamos ali sentados por um bom
tempo. Nenhuma palavra, nenhum barulho, nenhum movimento. Apenas nós
dois, uma lua pálida e algumas poucas estrelas no céu. Mesmo com o
silêncio ensurdecedor, aquele momento me parecia perfeito.
E no outro dia você se foi… Eu fiquei tão perdida! O que você estava fazendo? Justo no momento em que nos tornamos um, você pega a sua parte que me pertence e a leva pra bem longe de mim? Você disse que não haveria lágrimas, então porque meus olhos não conseguem enxergar através delas? O que tudo isso significou pra você? Estava mentindo quando disse que era “para sempre” já que quis fazê-lo durar tão pouco? E eu aqui sozinha e passando todas as nossas fotografias repetidamente, me lembrando de cada canção, cada gesto, cada brincadeira, cada briga; sentindo o cheiro do perfume que você deixou na minha roupa no nosso último encontro… Nunca pensei que aquele seria o nosso último beijo, que a partir dali não mais sentiria seus braços em mim. Tudo ficou rodando na minha cabeça em flashes, formando um filme e eu só conseguia ver as coisas boas, nenhum indício de que haveria um final, um adeus. Por que agora eu tenho que me acostumar a não sentir sua respiração na minha bochecha e não te ouvir sussurrar coisas ao meu ouvido me dizendo que o que temos é especial?
Foram muitas noites sem dormir, sentindo aquele vazio me dominando, recapitulando as lembranças, ouvindo as canções, procurando uma explicação. Porque você nunca voltaria. Nunca mais seríamos o mesmo. E quando te vi com aquela desconhecida de mãos dadas, percebi o jogo que você estava fazendo comigo o tempo todo, eu era apenas outra peça no seu tabuleiro. E você deveria estar orgulhoso de si mesmo, porque nas suas estratégias perfeitas conseguiu me derrubar. Mas isso não quer dizer que eu não tenha conseguido me levantar. Eu sempre pensei que tudo fosse verdadeiro, mesmo com todo mundo me dizendo que não. Eu era tão jovem e sempre acreditava no melhor das pessoas. Como fui tola em acreditar no seu falso amor! Como você pôde jogar enquanto eu te amava tanto? Você é tão bom com as palavras… E me deu um xeque-mate. É um bom jogador. Mas os jogos não duram pra sempre, e quando os seus terminarem, alguém te surpreenderá e a peça caída no tabuleiro será você.
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